Conservação de populações autóctones da Pinus sylvestris na serra do Gerês

A Pinus sylvestris L. é a espécie de conífera com a distribuição mais ampla da Eurásia e está em regressão desde o final da glaciação de Würm (Gaspar M.J. et al., 2013), encontrando-se em Portugal o limite mais ocidental da espécie. Documentadas desde o século XVIII, as populações remanescentes da Pinus sylvestris, localizadas na serra do Gerês em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) – núcleos da Biduiça e Matança -, viram confirmado o seu carácter autóctone na sequência de recentes estudos genéticos, onde foi possível identificar haplótipos únicos nesses núcleos (Almeida et al., 2013 e Lima-Brito J. et al., 2014), consolidando o seu relevante interesse biogeográfico e biogenético – únicas populações autóctones conhecidas em Portugal.

Esta singularidade associada à exposição a várias pressões antrópicas (e.g. fogo, corte, introdução de pinheiro silvestre alóctone) levou o Departamento de Conservação da Natureza e Florestas do Norte/ICNF, enquanto entidade gestora do PNPG e autoridade nacional nos domínios da floresta e da conservação da natureza, a iniciar em 2013 um projeto de preservação deste património genético assente na execução de estratégias de conservação in situ e ex situ (Duro M.R. e Loureiro A., 2014).

Entre as atividades in situ, dirigidas para a conservação e aumento da resiliência das populações nos locais de origem, salienta-se a: (i) gestão dos bosquetes e condução da regeneração natural; (ii) redução do grau de cobertura de matos, através de métodos mecânicos e manuais; (iii) caracterização e acompanhamento biométrico dos núcleos; e, (iv) introdução de espécies autóctones menos inflamáveis. Neste âmbito, nos anos de 2014, 2015 e 2016, já foram executados trabalhos de silvicultura preventiva nestes núcleos com colaboração de equipas de Sapadores Florestais, nomeadamente, criação de faixas de proteção nos limites dos bosquetes, bem como realizadas limpezas no seu interior e condução da regeneração natural existente, reduzindo deste modo a sua vulnerabilidade.

Ao nível das ações ex situ, estão a ser implementadas atividades de recolha de semente, para produção de plantas em viveiro e consequente florestação de novas áreas, bem como, para posterior constituição de banco seminal. Neste contexto, já foram realizadas três colheitas de sementes em ambos os núcleos, tendo sido recolhido um total de 126,5 Kg de pinhas a que corresponderam 1.370 g de semente limpa, que permitiu a produção de 65.000 plantas em viveiro. Em finais de 2015 e inícios de 2016, foram realizadas as primeiras plantações fora dos locais originais, tendo sido constituídos dois novos núcleos em áreas do PNPG (6,7 ha) e do Parque Natural do Alvão (7,8 ha), nos quais foram plantados 19.000 pinheiros-silvestres. Durante o ano de 2017 está preconizada a execução de trabalhos conducentes à estabilização desses dois novos núcleos (retancha, sacha e amontoa), bem como a conclusão da instalação de um novo núcleo em área do Parque Natural da Serra da Estrela.

Ainda no âmbito das iniciativas de conservação ex situ, está a ser desenvolvida investigação sobre a adaptação e potencialidade da Pinus sylvestris autóctone noutras regiões de Portugal, nomeadamente a recolha de informação relativa à distribuição desta resinosa que, permitirá a construção de modelos biogeográficos preditivos dos vários cenários climáticos (Roxo L. et al., 2014) que, aliados à potencialidade dos indivíduos produzidos em viveiro poderão, orientar medidas de mitigação às alterações climáticas e ser uma alternativa para florestação de outras áreas em Portugal.

Recentemente foi aprovado o “Plano-Piloto de prevenção de incêndios florestais e recuperação de habitats naturais do PNPG” (Resolução do Conselho de Ministros nº 83/2016, de 15 de dezembro), no qual se inclui, entre outros, o presente projeto, cuja dotação orçamental permitirá implementar de forma mais eficaz as ações a desenvolver na área do PNPG nos próximos seis anos.

Em suma, pretende-se com a execução deste projeto promover a conservação das populações autóctones de pinheiro-silvestre da serra do Gerês, ampliando os respetivos povoamentos e assegurando a conservação genotípica das populações riliquiais, bem como obter experiência em metodologias de conservação ex situ aplicadas a espécies florestais autóctones.

 

Referências Bibiliográficas

Almeida L. R., Gaspar M. J., Louzada J., Silva M.E., Cipriano J., Fernandes C., Carvalho A. e Lima-Brito J. 2013. Estudos Genéticos preliminares em populações de regeneração natural de pinheiro-silvestre na serra do Gerês. 7º Congresso Florestal Nacional: “Florestas – Conhecimento e Inovação”. Sociedade Portuguesa de Ciências Florestais. Vila Real/Bragança. 150 pp.

Duro M.R. e Loureiro A. 2014. Conservação de populações autóctones da Pinus sylvestris L. na serra do Gerês in Pinheiro-silvestre em Portugal: O “extremo sudoeste” ou apenas o fim?. Considerações e desenvolvimentos no âmbito do projeto PTDC/AGR-CFL/110988/2009. Fundação para a Ciência e a Tecnologia. 44 pp.

Gaspar M. J., Bento J., Louzada J., Correia C., Silva M.E., Carvalho A., Almeida L. R. e Lima-Brito J. 2013. Pinheiro-silvestre em Portugal: O “extremo sudoeste” ou apenas o fim?. 7º Congresso Florestal Nacional: “Florestas – Conhecimento e Inovação”. Sociedade Portuguesa de Ciências Florestais. Vila Real/Bragança. 157 pp.

Lima-Brito J., Pavia I., Carvalho A., Gaspar M.J., Bento J. e Roxo L. 2014. Evidências citogenómicas da existência de populações nativas na serra do Gerês in Pinheiro-silvestre em Portugal: O “extremo sudoeste” ou apenas o fim?. Considerações e desenvolvimentos no âmbito do projeto PTDC/AGR-CFL/110988/2009. Fundação para a Ciência e a Tecnologia. 20 pp.

Roxo L., Bento J., Duro M.R. e Loureiro A. 2014. Presença e adaptação do pinheiro-silvestre em Portugal in Pinheiro-silvestre em Portugal: O “extremo sudoeste” ou apenas o fim?. Considerações e desenvolvimentos no âmbito do projeto PTDC/AGR-CFL/110988/2009. Fundação para a Ciência e a Tecnologia. 14 pp.

Mário Rui Duro, Luísa Jorge, Armando Loureiro

Departamento de Conservação da Natureza e Florestas do Norte/ICNF