As estratégias da reprodução do cuco

O cuco-canoro (Cuculus canorus) é uma ave da família Cuculidae que habita principalmente na Europa, Ásia e África, sendo encontrada em todo o território nacional, embora com uma maior distribuição no nordeste de Portugal, Beira Alta e Trás-os-Montes.

Alimenta-se sobretudo de insetos e é conhecido por ser um parasita de ninhada, que consiste em manipular/enganar um casal hospedeiro o qual vai alimentar a cria.

Esta ave migradora pode ser observada sobretudo em zonas de florestas, perto de galerias rípicolas, montados, bosques, matos densos e até em algumas zonas urbanizadas, principalmente entre março e julho. Em meados de julho e agosto parte para o sul de África, regressando no início da primavera do ano seguinte.

Embora difícil de observar, a sua presença facilmente é notada pelo canto típico, bem reconhecido pela maioria das pessoas. Com olhos de tom laranja e uma orla fina amarela (Fig. 1), possuem a cabeça, pescoço, dorso e peito de cor cinzenta e com estrias ligeiramente horizontais na zona do peito e ventre. Este padrão cromático dificulta a sua deteção na penumbra e no meio da vegetação e dos ramos. A fêmea tem um padrão semelhante, mas com uma cor ferrugenta/alaranjada na zona superior do corpo.

Figura 1 – Pormenor da cabeça de um exemplar de cuco (Cuculus canorus). Fotografia cedida gentilmente por João Carrola.

Os juvenis são castanho-escuro a acinzentados, outros mais ferrugíneos, mas normalmente mais acinzentados no pescoço e na cabeça, possuindo ainda uma mancha branca típica na nuca.

O cuco possui uma estratégia reprodutiva muito típica, isto é, parasita indiretamente outras aves, em geral mais pequenas, depositando os ovos nos seus ninhos. Ao longo da evolução desenvolveu uma estratégia para que os hospedeiros não detetem facilmente os ovos intrusos, de forma a não os retirar do ninho.

As fêmeas cuco vigiam à distância os ninhos dos hospedeiros e quando o caminho está livre, retiram-lhes os ovos e põem o seu. São capazes de produzir ovos semelhantes na cor, tamanho e forma aos dos hospedeiros (mimetismo) para minimizar a sua deteção, o que é fundamental para o seu sucesso reprodutivo. Esse sucesso também depende da configuração e exposição solar dos ninhos dos hospedeiros. Ainda assim, alguns hospedeiros conseguem identificar os “ovos parasitas”, ocorrendo a sua rejeição, principalmente em ninhos mais expostos ao sol e mais iluminados.

Assim, cada ovo é colocado num ninho hospedeiro, o que significa que quando a cria do cuco nasce terá dentro do ninho outros ovos ou crias já nascidas da ave parasitada. Para evitar a competição pelo alimento, e visto que o cuco é uma ave de tamanho muito superior ao da espécie parasita, a cria evoluiu no sentido de anular qualquer tipo de concorrência alimentar. Deste modo, as crias de cuco recém-nascidas, com apenas um dia de vida e completamente cegas, procuram expulsar todos os outros ovos ou crias. Não é uma tarefa nada fácil, tendo em conta que o equilíbrio e perícia necessários para conseguir expulsar os ovos de dentro do ninho são ainda rudimentares. No caso de crias já nascidas, a complexidade da tarefa agrava-se, na medida em que elas se mexem, dificultando este processo.

Mesmo sendo cega nesta fase inicial de vida, a cria de cuco consegue, ainda assim e recorrendo a um processo repetitivo de tentativa-erro, detetar a posição dos ovos e expulsá-los. Com efeito, apoiando-se nas patas e asas, encosta os ovos (ou as crias) ao bordo do ninho e com o auxílio da ligeira curvatura no seu dorso levanta-os até os conseguir expulsar (Fig. 2). A tarefa leva tempo, mas a cria consegue realizá-la, através de uma aprendizagem resultante de um processo evolutivo adquirido ao longo de gerações.

Figura 2. Ninho com cria de cuco e quatro ovos da ave hospedeira. A cria irá nas próximas horas expulsar os outros ovos. É possível observar uma ligeira concavidade no dorso da cria, caraterística que ajuda a expulsar os ovos. Fotografia gentilmente cedida por Per Harald Olsen.

As tarefas da cria de cuco não se esgotam aqui, já que após ficar sozinha no ninho, tem que convencer os pais adotivos a fornecer-lhe o alimento requerido para satisfazer as suas necessidades metabólicas e de crescimento, muito superiores às das crias da ave hospedeira. Para tal, consegue simular o canto dessas crias, de modo a que os “progenitores” a reconheçam como sua cria, num estratagema de “imprinting”. As crias de cuco de diferentes espécies e habitats produzem vocalizações diversificadas, adaptadas aos vários tipos de hospedeiros.

Figura 3. “Progenitora” alimentado a cria de cuco, ainda com um tamanho reduzido. Fotografia gentilmente cedida por Per Harald Olsen.

Por outro lado, por ser muito maior e crescer mais depressa que as crias da ave hospedeira, existe outro desafio, cuja resolução tardou em ser percebida pelos investigadores, relacionada com a quantidade elevada de alimento que a cria de cuco necessita diariamente. Os biólogos verificaram que ela consegue manipular a quantidade de alimento que necessita, produzindo chamamentos com uma grande frequência e elevada intensidade, algo equivalente a uma ninhada completa (o cantar de uma cria de cuco é equivalente ao de quatro crias legítimas), e adotando exibições exageradas (interior da boca com cores berrantes – figura 3), conseguindo assim o alimento suficiente para assegurar as suas elevadas taxas de crescimento. O Resultado final ao fim de várias semanas é a presença da cria de cuco junto ao ninho com um tamanho muito superior e algo exagerado, relativamente aos “progenitores” (Fig. 4).

Existem vários hospedeiros do cuco, visto as fêmeas serem provenientes de ninhos de hospedeiros diferentes, o que explica que cada cuco fêmea esteja especializada em parasitar uma determinada espécie e a depositar sempre o mesmo tipo de ovo.

Quando os hospedeiros são parasitados durante a sua primeira postura,não têm referências de comparação do aspeto real das suas eventuais crias e, consequentemente, não vão reconhecer a cria de cuco como sendo parasita. Ocorre, assim, um fenómeno chamado “cunhagem do progenitor”, equivalente ao conceito “adult interspecific imprinting” ou “adult chick selection imprinting”, baseado na teoria fundamental de “imprinting” (instinto de sobrevivência nos animais recém-nascidos) exposta pelo zoólogo Konrad Lez. Neste caso, verifica-se o instinto de sobrevivência/alimentação da sua descendência, alimentando de forma incansável uma cria “gigante”, tal como se pode ver figura 4.

Figura 4. Cria de cuco a ser alimentada pela ave hospedeira. É notória a diferença de tamanho entre a cria de cuco e o progenitor que foi parasitado Fotografia gentilmente cedida por Per Harald Olsen.

Sendo assim, nas posturas seguintes os progenitores vão acabar por rejeitar as suas próprias crias, pois são diferentes da primeiras que tiveram, confirmando este tipo específico de “imprinting”.

São várias as técnicas a que uma fêmea de cuco recorre para distração dos hospedeiros. Por exemplo, imita o som do falcão para que os hospedeiros fiquem mais vigilantes, perante um eventual ataque aéreo, e menos concentrados na observação dos seus ovos, acabando por ficar mais suscetíveis para aceitar o ovo do parasita. Com efeito, quando deposita o seu ovo, produz esse canto para distrair o hospedeiro e não ser vista no ninho. No entanto, os hospedeiros já estão moldados aos chamamentos acústicos similares ao falcão e essa técnica nem sempre resulta. Ainda assim, se o hospedeiro estiver mais vigilante a esses chamamentos de perigo, é menos provável que consiga detetar o ovo de cuco, mas no caso de os ignorar pode eventualmente perder a vida. De uma forma geral, os benefícios para o hospedeiro de uma resposta rápida ao chamamento de um “falcão” levam a um acréscimo da probabilidade de erro na discriminação do ovo, e daí ficar mais suscetível ao parasitismo.

AUTORES

Diana Santos1, Jorge Ferreira-Cardoso 2 e João Carrola2

1Aluna da Licenciatura em Biologia, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal

2Centro de Investigação de Tecnologias Agroambientais e Biológicas (CITAB), Departamento de Biologia e Ambiente (DeBA), Escola de Ciências da Vida e Ambiente (ECVA), UTAD, Vila Real, Portugal

 

BIBLIOGRAFIA

Stevens, M. (2013). Bird brood parasitism. Current Biology 23, R909-R913, doi:https://doi.org/10.1016/j.cub.2013.08.025.

York, J. E. & Davies, N. B. (2017). Female cuckoo calls misdirect host defences towards the wrong enemy. Nature Ecology & Evolution 1, 1520-1525, doi:10.1038/s41559-017-0279-3.

 

WEBGRAFIA

https://www.nationalgeographic.com/magazine/2018/01/explore-bird-cuckoo-brood-parasitism/#/explore-cuckoo-bird.jpg

http://www.avesdeportugal.info/cuccan.html

http://animaldiversity.org/accounts/Cuculus_canorus/

http://www.bbc.co.uk/nature/life/Common_Cuckoo