Alerta sobre os metais pesados em Portugal

A situação de Portugal em relação aos metais pesados tem passado um pouco despercebida no que diz respeito às consequências da sua acumulação nos destinos finais. O alerta chegou no relatório da AEA, publicado a 10 de julho, que coloca duas das ETAR’s Portuguesas, entre as 59 empresas apresentadas, no top 3 das mais poluentes a nível Europeu, no que diz respeito à emissão de metais pesados em meio hídrico.

As duas principais emissoras em causa localizam-se na Leça da Palmeira e Gaia. Duas zonas são ribeirinhas e situadas no litoral. Para ter uma ideia real da situação, estas em conjunto, no ano de 2015, emitiram cerca de 19856 Kg de metais pesados para as linhas de água. Embora estes valores sejam expressivos não ultrapassam os limites máximos tabelados por lei em Portugal.

Mesmo assim a Quercus acha preocupantes estes níveis de poluição, tendo em conta que, em valor de emissões, a única fonte que nos ultrapassa é uma zona mineira na Polónia. Quais as lições e consequências a advir dos resultados divulgados pela Agência Europeia?

Esta questão não deve ser esquecida, até porque a presença de metais pesados, sejam na água ar ou solo representam uma grave ameaça à saúde pública e aos ecossistemas, pois são facilmente inaláveis e ingeríveis pelos organismos. É necessário compreender o que está em causa e quais as possíveis consequências que estas descargas contínuas implicam na saúde pública.

O que são os metais pesados?

Os metais pesados são quimicamente definidos como um grupo de elementos situados entre o Cobre (Cu) e o Chumbo (Pb) na tabela periódica. Estes metais são quimicamente reativos e bioacumulativos, ou seja, o organismo não é capaz de os eliminar de forma rápida e eficaz.

Estes elementos diferem dos outros agentes tóxicos porque não são sintetizados nem destruídos pelo homem. Infelizmente a atividade industrial tem vindo a diminuir significativamente a continuidade desses metais nos minerais, induzindo a produção de novos compostos, além de alterar a sua distribuição no planeta.

Embora sejam conhecidos pelos seus efeitos negativos os seres vivos necessitam de pequenas quantidades de alguns desses metais incluindo o Co (Cobalto), o Cu (Cobre), Mn (Manganês), o Mo (Molibdênio), o V (Vanádio), o Sr (Estrôncio) e o Zn (Zinco), para a realização de funções vitais no organismo. Contudo, os metais pesados como o Hg (Mercúrio) e Pb (Chumbo) não possuem nenhuma função dentro do nosso organismo e a sua acumulação pode provocar doenças graves, principalmente em mamíferos.

Sendo o solo um recurso natural com uma pluralidade de funções torna-se necessário e urgente protegê-lo de todas as fontes de contaminação, o que não se verifica nos dias de hoje. Atualmente, após décadas de práticas incorretas na utilização do solo, estão a aparecer sinais de alerta de contaminação do mesmo, não só contaminação do solo nas cidades, mas também a nível regional, através da perda de produtividade agrícola do solo e poluição de linhas de água.

Os metais pesados são causa de grande preocupação devido à capacidade de que têm de causar efeitos sérios e por vezes irreversíveis no organismo devido às suas propriedades cumulativas, mutagénicas e cancerígenas. As principais propriedades dos metais pesados são os elevados níveis de reatividade e bioacumulação. Isto significa que estes elementos, além de desencadearem diversas reações químicas que os organismos não podem degradar também têm a capacidade de serem cumulativos ao longo da cadeia alimentar.

Quando depositados como resíduos industriais, na água, no solo ou no ar, esses elementos podem ser absorvidos pelos vegetais e animais das proximidades, provocando graves intoxicações ao longo da cadeia alimentar. A poluição atmosférica por metais pesados é considerada uma das fontes mais relevantes de entrada destes elementos nos ciclos biológicos, e consequentemente na nossa cadeia alimentar.

São de realçar, ainda, as substâncias resultantes das fugas do sistema de drenagem das águas residuais, que contêm metais pesados e moléculas orgânicas dificilmente biodegradáveis.

Urge uma intervenção acertada das entidades competentes e responsáveis, no âmbito de proteção do solo, uma vez que é necessária a realização de inventários mais recentes que caracterizem a real situação do estado de contaminação dos solos em Portugal.

Propriedades e consequências

Mercúrio – Metal líquido em temperatura ambiente proveniente da degradação natural da crosta terrestre, inodoro, volátil, insolúvel em água e altamente tóxico.

 No organismo humano, este elemento químico age de forma devastadora: uma vez absorvido, deposita-se em vários locais do corpo, tais como cérebro, rins, aparelhos digestivo e reprodutivo, pulmões, rins, fígado, pâncreas e outros, causando graves distúrbios, por vezes irreversíveis.

Chumbo – Metal pesado bastante maleável, de baixa condutividade elétrica, utilizado em processos de soldagem, na construção civil e indústria de munições e tintas.

Trata-se de um dos mais perigosos entre os metais pesados, afetando principalmente o sistema nervoso central, medula óssea e rins.

Crómio – Metal de grande dureza, muito utilizado no ramo da metalurgia para aumento da resistência de agentes corrosivos.

Os principais danos no organismo associados a este elemento são as lesões na pele, bronquite e, se for em quantidades mais elevadas, pode levar ao desenvolvimento de células cancerígenas.

 

Cádmio – Metal caracterizado principalmente pela sua maleabilidade e maleabilidade. É utilizado principalmente na indústria de baterias e na galvanoplastia.

Este elemento pode produzir efeitos tóxicos ao no organismo humano mesmo em quantidades moderadas, afectando órgãos vitais como rins, fígado e pulmões. A intoxicação por cádmio pode provocar danos graves no sistema ósseo, cancros, entre outros distúrbios.

 Arsénio – Metal pesado aplicado aos processos de conservação da madeira e do couro, na produção de vidro e na metalurgia.

A contaminação com arsénio pode provocar lesões não cicatrizáveis na epiderme, lesões em diversos órgãos vitais, alguns tipos de cancros (em especial, o cancro de pele), e, se em concentrações elevadas, pode chegar mesmo a matar.

 


Ao conhecer as consequências destes elementos é aconselhada um olhar mais atento sobre as instalações em questão e todas as outras que lidem com esta situação. Esta expressão tão clara de emissões de metais pesados é apenas um alerta as consequências futuras, tanto para a população como para o impacto negativo a nível dos ecossistemas.

Márcia Rodrigues